Sr. Arcano
O poeta de uma sociedade decadente
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22/04/2017 21h07
A paz selvagem do meu lar

A paz selvagem do meu lar

Perto da maior planície alagada do mundo, aqui estou. Eu não pensei que pudesse, algum dia, amar um lugar assim, com seus encantos e mistérios; com sua beleza selvagem e serena. Mas aqui estou, contemplando o silêncio do rio...

As lendas contadas pelo povo local são o que há de melhor para se ouvir à noite, numa roda de conhecidos sob o luar, na beira do rio. Contam sobre monstros e estranhos animais que buscaram pessoas que andavam sozinhas na margem, e imaginamos sob o luar os mistérios que o Pantanal guarda entre suas folhagens.

E por falar em animais, o jacaré das fotos abaixo correu quando me aproximei. Existe uma época em que eles atacam, que é a época da cheia e o alimento é difícil. Então eles atacam de fome. Mas nessa época da foto era a época da seca, em que a água vai baixando e há alimentação abundante, muito peixe. Então eles não atacam nem as capivaras, que passam por cima deles, atropelando-os como seres bobalhões de tão empaturrados que estão. E o filhote da foto, pouco maior que a palma da minha mão, é ágil e possui uma força impressionante. Quase não consegui segurá-lo.

O povo daqui toma tereré - uma erva regada a água gelada num copo parecido com o de chimarrão. Principalmente em dias quentes. Já no inverno, bebe-se muito chá quente. E ao alimento que acompanha o chá dá-se o nome de chipa, que é parecido com pão de queijo, porém bem mais consistente.

A chipa serviu bem de acompanhamento para o meu vinho. Não adianta, por toda parte levo uma garrafa do néctar tinto.

Fico pensando se, embriagado, talvez alguma criatura venha me buscar, enquanto ando solitariamente por estas terras. Já sonhei muitas vezes com isso.

Mas de uma coisa tenho certeza. Não há a necessidade de que nenhuma criatura me prenda aqui. Sinto-me parte do lugar. É esse mistério do Pantanal que me fascina. Algo que não consigo identificar, mas que está no ar.

 


Publicado por Sr Arcano em 22/04/2017 às 21h07
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11/11/2016 09h36
E morre Leonard Cohen...

Ah...
A poesia...
Uma maldita que nos enlouquece, promete sonhos e mundos, liberta-nos da própria loucura, e nos amadurece.
Deixa marcas profundas, porque vem da alma - local que só ela tem acesso. Como uma maldição que aperta nosso coração até sangrar!
Ah...
A poesia...
Ela é amante, é sonho, é libertação. E nos causa medo quando nos deparamos com sua face: por vezes divina, por vezes caveira!
Ah...
A poesia...
Deixa marcas profundas, porque vem de nossa alma. Pulamos do abismo em seu nome, enlouquecemos com seus pesadelos e tormentos; ficamos apaixonados porque o poeta ouve sua voz, e a voz dela é o conjunto infinito de idéias que vêm do mais terrível cupido - disfarçado de Anjo desgraçado a nos atormentar com suas sugestões infernais! 
E o poeta, ao despedir-se dessa musa que toca a lira em seu coração, vê que sua alma ganha um silêncio profundo. Talvez há muito desejado.
Ah...
A poesia... Lembro-me bem dela! Tão longe e tão perto, tão amiga e tão destruidora. A música que toca ao longe é dela, e só o poeta pode ouvir, porque possui o mesmo ritmo de seu coração. 
Ah....
A poesia... suspiramos ao lembrar. E derramamos algumas lágrimas ao perceber que fomos tão bem criados por ela! Soubemos ouvir tão bem suas palavras, sua canção. Ninguém pode ouvi-la melhor do que nós! Mesmo morta, debaixo da terra, a desejamos para o mundo, e não para nós, pois seu legado de amor, vida, morte e sonhos, muitos sonhos, é algo que a humanidade precisa aprender.
Olhamos pela janela e pensamos:
"Ah...
A poesia...".
Os que perderam a infância poderiam, com ela, amar e sonhar. Correndo o risco de enlouquecer. Porque mesmo morta, ainda estará lá a sua imortal herança: uma canção misteriosa trazida pela brisa e pelos espíritos.
Ah...
A poesia...


Publicado por Sr Arcano em 11/11/2016 às 09h36
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06/04/2016 23h17
Diz que bebe veneno, mas nunca experimentou!

Vivemos na era do ódio, que tem origem na ignorância das pessoas, que por sua vez tem origem no medo. Então vem o dilema: a dor, tão necessária para os fracos, deve ser evitada justamente porque é temida?

Eu diria que não. Se não fosse pela dor, que experiência teria o fraco para se tornar forte?

E vou mais além: que finalidade teria o chicote do carrasco? Hoje em dia é muito comum ver um chicote nas mãos de uma dominatrix - e essa imagem atraente é moda para os que preferem seguir um estilo. Temos então uma cultura arrombada pelos maus costumes de uma sociedade vazia.

Não é de se estranhar mais, em tempos caóticos como este, uma pessoa xingar você com ódio nos olhos, e aparentemente sem motivo - a não ser a velha e passada desculpa de que você não passa de mais um rótulo odioso. Existem rótulos para tudo hoje em dia.

Eu sou o carrasco, uso o chicote. Meu campo de tortura é a minha literatura, o lápis é meu chicote. E você, caro leitor, é a vítima abençoada que aprenderá com minhas palavras penetrando em seu coração, fazendo-o sangrar. Somente assim você perderá o medo, verá que eu - seu carrasco - sou seu amigo. E quando estendo minha mão e digo: "Aproxime-se, criatura!", na verdade estou lhe tratando como um igual, com respeito pelo o que há dentro de você.

Não se trata, portanto, de uma vil imagem modista que muitos usam em total ignorância. O que você tem por fora não significa nada, não possui conteúdo. O que você veste ou ostenta; o que você mostra através de sua maquiagem ou tatuagem; o que você exibe através de seu corpo atraente; enfim, nada disso representa o que você realmente é, porque quando muito se exterioriza, pouco sobra para se preencher. Trata-se, na verdade, do que você é por dentro.

De onde vem sua educação? De onde vem seus modos? De onde vem a conversa, o entendimento, e principalmente a reflexão que possibilita o estudo que você faz do que o cerca?

Estou diante de você, com um chicote e estendendo-lhe minha mão. Você quer saborear um pouco do néctar que tanto admira, ou prefere continuar apenas se mostrando? - dizendo a todos que sabe o sabor sem nunca ter realmente experimentado.

Enquanto você se mata, envenenando-se com o próprio ódio, é você quem morre, e não o carrasco.

 

 


Publicado por Sr Arcano em 06/04/2016 às 23h17
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11/07/2015 20h46
Foto da minha caligrafia

Antes de ter um site; antes de estar nas redes sociais, eu escrevia cartas. Era uma forma divertida de estar em contato com os amigos e leitores. A ansiedade da espera pelo carteiro era compensada pelo prazer de abrir a carta e encontrar, semanas depois de uma espera por resposta, as palavras escritas como se fossem parte da alma do destinatário.  Muitas vezes essas entregas dos correios vinham com “brindes”: dentro dos envelopes, além das cartas, chegavam fitas K-7 com músicas gravadas de nossas bandas favoritas, fanzines, flyers e desenhos.



Muitos não devem fazer a menor ideia do que estou falando, haja vista o mundo atual em que vivemos, em que predomina o uso de redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas. A maioria dos jovens de hoje não sabem postar uma carta pelos correios, menos ainda o significado de CEP e sua finalidade nos campos de destinatário e remetente do envelope.



Hoje, muitos jovens também estão perdendo a identidade de sua caligrafia. Já vi em alguns artigos na internet que existe até uma proposta para eliminar completamente o uso de cadernos, sendo utilizados em sala de aula apenas computadores desktop ou notebooks. O uso do teclado, dessa forma, seria o único modo de escrita a ser adotado por nossos estudantes. Atribui-se a essa proposta a praticidade e rapidez da digitação, adaptando-se melhor à realidade atual e suas exigências advindas do mercado e formações profissionais.



Vale lembrar que o teclado tal qual o conhecemos hoje teve sua origem nas máquinas de datilografia (alguém lembra?). Uma ferramenta antiga que hoje é peça de museu (apesar de alguns intelectuais a usarem por puro capricho ou vaidade; algo que, na minha opinião, é improfícuo; não tem nenhuma utilidade), mas que foi responsável pela boa habilidade de digitação de muitos senhores e senhoras de hoje, inclusive eu, mas no meu caso usei apenas por curiosidade. Treinei muito nesse equipamento como se fosse um brinquedo, usado em minha adolescência para fazer fanzines e distribuir aos meus amigos correspondentes. Depois do uso contínuo, foi natural que eu abandonasse essa máquina e passasse a usar mais o meu computador, que eu mesmo comprei logo em seguida.



Porém, nunca abandonei o uso da escrita. Minha caligrafia nunca foi uma das melhores, mas em comparação a grande maioria dos jovens que conheço (trabalho como gerente de uma escola particular profissionalizante) vejo que minha caligrafia não tem a aparência de garranchos, letras muito mal feitas. E o que é pior: erros absurdos e alarmantes de caligrafia e ortografia vindos de jovens que já terminaram o ensino fundamental. Já estive a trabalho com educação para jovens no Rio de Janeiro e em Mato Grosso do Sul, além de já ter tido contato com escritas de jovens de São Paulo e estados do Nordeste; e posso garantir: a educação neste país está muito fraca – Lê-se pouco, escreve-se menos ainda. Há exceções, claro, mas essas exceções são sempre a minoria. O reflexo disso nós vemos na internet. Vários erros absurdos de escrita nós encontramos em comentários e posts.



Muitas pessoas veem hoje a caligrafia como algo desnecessário devido ao uso das impressoras e comunicações digitais. Mas se para essas pessoas a caligrafia tornou-se algo fútil, como seria se, numa situação qualquer completamente sem recursos, fosse pedido a uma pessoa que nunca usou papel para escrever, para que escrevesse a lápis ou caneta uma carta?



Já faz algum tempo que um amigo meu, antigo correspondente de cartas (e que agora só se comunica comigo pela internet, o que é bastante natural, já que também não uso cartas para me comunicar com mais ninguém), uma pessoa bastante ligada à escrita e leitura, lançou um desafio aos seus amigos presentes em seus círculos de redes sociais (o que me inclui), a escrever num papel um texto qualquer, de preferência um poema de um autor favorito, e tirar uma foto para mostrar na rede.



Ele mesmo deu início à proposta mostrando sua caligrafia, e foi interessante como pude notar em sua escrita os velhos traços de sua personalidade; as lembranças que tenho dele desde os tempos que recebia suas cartas pelo correio; o mesmo indivíduo que pude reconhecer logo pela sua escrita, sem precisar de foto ou vídeo. Ali vi que a escrita aproximava muito mais as pessoas pelo o que elas eram (eram suas opiniões e características próprias no papel). Ao contrário da frieza de hoje, em que uma foto ou vídeo não diz nada; às vezes pode ser um fake, ou pior: uma pessoa se passando por aquilo que ela não é pelos mais diversos motivos, do querer enganar ao estar se enganando.



Sobre o desafio desse meu amigo, o simpático Wandrey Queiróz, deixo abaixo minha participação. A foto de minha caligrafia, um poema de Augusto dos Anjos (meu poeta brasileiro favorito), que escrevi hoje para deixar registrado aqui neste meu diário.



Abraços ao Wandrey, e desculpe pela demora.




Publicado por Sr Arcano em 11/07/2015 às 20h46
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31/08/2012 08h42
O que nos faz mal

A realidade apresenta-se diante de nossos olhos com um mal-estar latente. É diferente de épocas antigas, onde o mal era justificado por fazer apenas oposição ao bem.

Hoje, o mal é aquilo que usamos para fazer justiça. É a arma que dispara em nome da lei, é a lei que mata em nome da pena de morte. E é também a bomba que jogamos sobre nossos vizinhos, a devastação que causamos em nossas florestas, a poluição que jogamos em nosso ar, os abatedouros de animais que nos matam a fome... (nos matam a fome?).

E o que nos faz mal não é esse mal, apenas.

Hoje, o que nos destrói, o que nos corrompe e infecta nosso sangue, é principalmente a nossa doença, compartilhada por todos como um câncer incurável.

Essa doença é movida pelo orgulho que temos de nossas crenças vazias de alma, nossa fé antiquada naquilo que nos explora, nossas ideologias ultrapassadas de amor e paz, e nossos vícios feitos para seduzir ou matar. A base de todas as nossas justificativas criminosas, de todos os assassinatos que cometemos movidos pelo ódio.

Nossa doença. Que não tem nome, mas pode ser encontrada no fundo do poço em que vivemos, onde os sintomas são conhecidos por todos.

Mas nada fazemos para nos curarmos, porque vivemos nossas vidas erguidos nas imagens de nossos próprios sonhos e realizações, ostentamos com orgulho uma coroa ao conquistarmos um trono qualquer. E assim permanecemos doentes, cegos para a realidade, porque só percebemos que não somos nada quando a morte apresenta-se diante de nós, revelando um universo que jamais suportaríamos, já que nossa ignorância é tamanha que precisamos de valores materiais para vivermos.

 

 

 

 

 

 


Publicado por Sr Arcano em 31/08/2012 às 08h42
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