Sr. Arcano
O poeta de uma sociedade decadente
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HÁ UM DEMÔNIO ATRÁS DA PORTA

Um livro de poesia deve ser lido mais de uma vez. Entender os versos é só a primeira fase, depois vem o entendimento da essência e somente após muitas leituras, o aprofundamento da alma em seus ritmos e vozes.

É diferente de um romance, em que raramente lemos novamente, por já sabermos a história e por quase nunca nos trazer algo de novo. Já a poesia, ao contrário, sempre traz algo novo em sua leitura, pois a impressão que temos é sempre uma nova revelação trazida em imagens e sentimentos. Um livro de poesia na cabeceira da cama é sempre uma motivação, um pensamento latente a tocar nossa alma, quando a poesia admirada passa a fazer parte do que somos, e é por isso que muitas vezes decoramos um poema inteiro, como frases que para sempre levaremos em nosso profundo íntimo.

O livro “Há um demônio atrás da porta”, de Karin, traz uma poesia sombria que, na primeira leitura, já sentimos que a autora quer nos deixar uma mensagem. Na segunda leitura essa mensagem ganha vida, e percebemos que existem vozes por trás das palavras. A partir de então, quando ficamos mais familiarizados com o livro, podemos ouvir lamentos. E se não tomarmos cuidado, o silêncio da leitura é interrompido pela agonia de várias almas torturadas.

Há canção nos poemas de Karin. Como uma caixinha de música a trazer-nos ecos do além, sugiro a leitura sob a luz de velas, porque é um livro para ser lido em silêncio (longe das pessoas, e nunca dentro de um ônibus), pois somente assim captaremos o som que surge inicialmente tímido, para depois sermos possuídos pelas várias almas que lhe dão vida.

Nota-se uma autora abandonada, e um ambiente velho, antigo. Tanto que, se o livro viesse com teias de aranha, a decoração lhe cairia bem.

 
O poema SOLIDÃO (página 36) reflete bem sua essência:
 
“Vagamos solitários
Pelas ruas silenciosas...
Mas nenhum silêncio é maior
Do que o de nossas almas.”
 
Até sermos interrompidos em nosso silêncio pelos fantasmais suspiros de um melancólico fantasma no poema O FANTASMA (página 45).
 
Nota-se também uma singela rebeldia contra a religião. A autora não chega a ser radical ou violenta em seus versos, mas deixa transparecer sua aversão por aqueles que acreditam no vazio, como podemos ver em seu poema LUTO (página 47): “os santos são surdos e os deuses foram embora”.
 
Mas se queremos uma definição para Karin neste livro, esta pode ser encontrada no poema NOVILÚNIO (página 54):
 
“No escuro,
Emotiva Lua
Chora a solidão
Das trevas.
 
No silêncio,
Solitária poesia
Incrusta estrelas
Em lúrido papel...”
 
 
O livro, com seu aspecto aterrorizante, consegue provocar arrepios em leitores que esperam exatamente por isso, como podemos ver no poema O QUINTAL (página 58). Eis um trecho:
 
“Bonecas mortas, estranguladas
Por toda a casa, a alindam
Numa festa mórbida, deformadas
Brincam as alminhas que brindam”.
 
Por toda parte temos a impressão de que há em Karin uma menina que foi possuída por um demônio. E esse passado parece que a persegue. Perguntei à autora o que a influenciou nesse sentido, e ela respondeu:
 
“Obviamente, eu sou a ‘esquisita’ da família e desde criança eu tenho uma afinidade com o sobrenatural e, se não bastasse, tenho TOC e características de personalidade borderline, então eu nunca estava realmente ‘sozinha’...
 
Por muito tempo eu tive fé cristã, minha família é católica, mas eu nunca acreditei realmente na mitologia, por isto eu lia tudo o que podia sobre religiões e desenvolvi um senso crítico (e um sarcasmo) gigantesco. A estética religiosa sempre me atraiu, e a figura da morte e do demônio são minhas preferidas. Toda a mitologia que as envolvem me fascina. Como quando eu ainda tinha fé, em nenhum momento Deus ou Jesus atenderam aos meus apelos (e acredite, eu já tive muita fé), eu acabei questionando tudo, sempre estudando (estudei história, filosofia, etc.), passando pelo agnosticismo até chegar ao ateísmo. Neste processo, acabei ‘abraçando o diabo’, porque ao final foi a luz (lúcifer...) que me arrancou de uma crença inútil e ignorante. Eu o encaro como um saber que, ao ‘me possuir’, me libertou, apesar de brincar com a possibilidade de sua existência real. Já a morte é a companheira de todo possuidor de transtorno mental com ideação suicida; sabemos que ela está conosco, sempre...
 
Alguns parentes e até mesmo alguns ‘amigos’ pensam que sou satanista, o que é constrangedor, pois revela sua ignorância. Mas meus únicos demônios são psiquiátricos, mesmo!”
 
Para finalizar, um poema em especial aqui destaco. Quando comecei a ler o longo poema, senti no decorrer da leitura algo familiar. A essência desse poema lembrava-me algo. Porém, só pude realmente compreendê-lo quando cheguei ao seu final. Uma fantástica homenagem a Edgar Allan Poe, intitulada O CORPO DELA JAZIA, ALI. TÃO BELA ESTAVA QUANDO EU A VI...

Destaco também outros poemas incríveis de Karin, que valem a pena serem lidos mais de uma vez: PALHAÇO (página 81), DORME NENÊ... OU A CUCA VEM PEGAR... (página 90), SENHORA (página 106), ENFIM... LIVRES! (página 113), FINITUDE (página 126, este lembra o poema ETERNA MÁGOA, de Augusto dos Anjos), VOZES (página 127, e este lembra o poema VIOLÕES QUE CHORAM, de Cruz e Sousa!), A ESCRITA (página 146), LIBERTAÇÃO (página 175), MENINA (página 184), e DOENTIA PAIXÃO (página 189).
 

 
Karin nasceu em Porto Alegre – RS (1969) e é bibliotecária. Aprecia o gótico desde a infância. Seus poemas ora são sombrios e melancólicos, outrora críticos e sarcásticos. São confissões... ou líricos engodos para intrigar e seduzir o leitor.
Sr Arcano
Enviado por Sr Arcano em 20/10/2016
Alterado em 20/10/2016
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